Embora o desenvolvimento da polilaminina pela UFRJ represente um esforço científico louvável, a sua administração precoce através do uso compassivo no Brasil expõe falhas críticas e perigosas no sistema regulatório e ético do país. Concebido teoricamente como um recurso humanitário de exceção para pacientes sem alternativas, o uso compassivo frequentemente se desvirtua em um atalho que contorna o rigor indispensável dos ensaios clínicos. Ao permitir a aplicação desse polímero em lesões medulares antes de sua validação estruturada, o ambiente médico brasileiro cria uma falsa sensação de segurança, expondo pacientes extremamente vulneráveis a intervenções invasivas cujas interações e riscos a longo prazo no sistema nervoso central humano ainda são, na melhor das hipóteses, desconhecidos.
A extrapolação direta dos promissores dados pré-clínicos para o desespero clínico humano agrava esse cenário. Por mais que os estudos em cães e roedores com trauma raquimedular comprovem neuroproteção e regeneração axonal, a arquitetura neurológica humana exige evidências que não podem ser supridas por analogia. No Brasil, essa fragilidade é intensificada pelo fenômeno da “judicialização da saúde”, onde o uso compassivo muitas vezes serve como base para liminares que forçam a liberação de tratamentos não comprovados. Isso subverte a ciência: em vez de serem protegidos por protocolos controlados, os pacientes são submetidos a experimentos informais e despadronizados, impossibilitando a coleta de dados confiáveis sobre a real eficácia ou toxicidade do “andaime” biológico.
Nesse ecossistema de aplicação compassiva, os relatos de Fase 1 e os casos divulgados em preprints atuam como o combustível perfeito para o viés de ilusão terapêutica. Sem um grupo controle, qualquer sinal de contração motora voluntária em pacientes brasileiros é imediatamente e equivocadamente creditado à polilaminina. Ignora-se, sob o peso da urgência emocional e do clamor midiático, que até 30% dos quadros de lesão medular apresentam algum grau de recuperação motora espontânea devido à simples regressão do choque medular ou absorção de edemas locais. O uso compassivo cega a avaliação clínica, transformando flutuações naturais da patologia e o potente efeito placebo em provas anedóticas de uma cura que ainda não existe.
A longo prazo, a banalização dessa via de acesso no cenário brasileiro sabota a própria evolução da pesquisa médica nacional. Quando terapias experimentais tornam-se acessíveis de forma generalizada sob a justificativa da compaixão, o recrutamento para os ensaios clínicos randomizados e controlados (Fases 2 e 3) sofre um colapso. Afinal, diante da chance de receber um placebo em um estudo formal, a maioria dos pacientes buscará a garantia do uso compassivo ou judicial. Ironicamente, essa compaixão imediatista paralisa a medicina baseada em evidências, atrasando a resposta científica definitiva que o país precisa e aprisionando gerações de pacientes em um ciclo de falsas promessas e achismos terapêuticos.