O câncer de esôfago pode enganar até os melhores médicos ao simular uma simples dor na cervical ou no pescoço, especialmente nos estágios iniciais ou intermediários. Muitos pacientes chegam ao consultório relatando “dor na nuca”, “tensão no pescoço” ou “dor que irradia para os ombros”, atribuindo o problema a má postura, estresse, hérnia de disco cervical ou artrose — e acabam tratando com fisioterapia, analgésicos ou bloqueios sem melhora. Na realidade, essa dor surge por invasão local do tumor (que comprime nervos, músculos ou estruturas próximas), linfonodos metastáticos cervicais (especialmente na cadeia jugular ou supraclavicular), ou irritação do nervo laríngeo recorrente e do plexo braquial. Como neurocirurgião, vejo com frequência pacientes encaminhados para investigação de coluna cervical que, na verdade, têm câncer de esôfago avançado — um erro diagnóstico que custa meses preciosos.
Os sinais e sintomas clássicos do câncer de esôfago frequentemente se misturam com essa dor cervical simulada: disfagia progressiva (dificuldade para engolir sólidos, depois líquidos), dor ao engolir (odinofagia), sensação de bolo na garganta ou “comida emperrando no peito”, perda de peso involuntária rápida, regurgitação, queimação persistente que não cede com antiácidos e, em casos mais avançados, rouquidão (por paralisia de corda vocal), tosse crônica ou aspiração de alimentos. Quando o tumor invade ou comprime estruturas cervicais, a dor na nuca ou nos ombros pode ser o primeiro ou o sintoma mais proeminente, mascarando o problema digestivo principal.
Com a progressão, os sintomas se tornam mais alarmantes: vômitos com sangue, fezes pretas (melena), dor torácica constante ou dor nas costas, inchaço visível no pescoço (linfonodos duros e indolores), anemia grave por sangramento oculto e falta de ar por compressão traqueal ou fístula. A dor cervical simulada pode evoluir para uma dor intensa, refratária a analgésicos comuns, piorando ao deitar ou com movimentos do pescoço — um sinal vermelho que exige investigação imediata com endoscopia digestiva alta (padrão-ouro para visualizar e biopsiar o tumor) e tomografia/PET-CT para estadiamento.
Se você tem dor na cervical persistente associada a dificuldade para engolir, emagrecimento inexplicável, rouquidão ou sangramento digestivo, não trate como problema ortopédico ou postural — procure urgentemente um gastroenterologista, oncologista ou neurocirurgião para avaliação completa. O câncer de esôfago é agressivo, mas o diagnóstico precoce (quando ainda localizado) permite ressecção cirúrgica curativa em muitos casos. Não subestime uma “dor na nuca” que vem acompanhada de sintomas digestivos: ela pode ser o primeiro grito de alerta de um tumor no esôfago. Marque uma consulta agora — o tempo faz toda a diferença.