A formação da hérnia de disco lombar é um processo fisiopatológico que se inicia com a degeneração progressiva do complexo disco-vertebral, frequentemente associada ao envelhecimento e a microtraumas de repetição. O disco intervertebral, que funciona como um amortecedor hidráulico, sofre um processo de desidratação do seu núcleo pulposo, rico em proteoglicanos. Com a perda da pressão hidrostática interna, a carga mecânica é transferida de forma anômala para o ânulo fibroso, a estrutura periférica composta por lamelas de colágeno concêntricas, que passa a sofrer fissuras radiais e circunferenciais.
A herniação propriamente dita ocorre quando o material do núcleo pulposo é expelido através dessas falhas estruturais do ânulo. Esse fenômeno pode ser classificado tecnicamente como abaulamento, protrusão, extrusão ou sequestro, dependendo da integridade das fibras anulares e do ligamento longitudinal posterior. Sob o ponto de vista biomecânico, a herniação geralmente ocorre póstero-lateralmente, onde o ligamento longitudinal posterior é mais delgado, permitindo que o fragmento discal invada o canal vertebral ou o forame neural.
Uma vez que o material discal entra em contato com o espaço peridural, a patologia deixa de ser meramente mecânica e passa a ser química e inflamatória. O núcleo pulposo é um tecido imunologicamente privilegiado; ao ser exposto ao sistema imune, desencadeia uma cascata inflamatória aguda, liberando mediadores como a Interleucina-6 (IL-6) e o Fator de Necrose Tumoral Alfa (TNF-α). Essa “sopa química” irrita as raízes nervosas adjacentes, resultando em radiculopatia (a clássica dor ciática), mesmo na ausência de uma compressão física severa.
Do ponto de vista neurocirúrgico, a compressão crônica ou aguda pode levar à isquemia microvascular da raiz nervosa e ao comprometimento do fluxo axoplasmático. Se a compressão for significativa e persistente, pode evoluir para déficits neurológicos focais, como paresia ou hipoestesia no dermátomo correspondente. A decisão pela intervenção, seja ela microdiscectomia ou tratamento conservador, baseia-se na correlação precisa entre os achados de imagem (ressonância magnética) e a propedêutica neurológica, visando sempre a descompressão das estruturas neurais antes que ocorra lesão axonal irreversível.