• Formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
  • Residência de Neurocirurgia na Santa Casa de Belo Horizonte.
  • Fellow em Radiocirurgia e Neurocirurgia Funcional pela Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA) EUA.
  • Neurocirurgião do Corpo clínico do Hospital Sirio Libanês e Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo
  • Autor do Neurosurgery Blog
  • Autor de 4 livros
  • Colaborador na criação de 11 aplicativos médicos.
  • Editor do Canal do YouTube NeurocirurgiaBR
  • Diretor de Tecnologia de Informação da Associação Paulista de Medicina (APM) 
  • Delegado da Associação Médica Brasileira (AMB)

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Medicina de Guerra no Brasil: Lesão por Tiro na Coluna Vertebral – A Realidade Diária que Deixa Jovens Paraplégicos e Sobrecarrega UTIs. Julio Pereira Neurocirurgião

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A medicina de guerra no contexto civil brasileiro inclui lesões por tiro na coluna vertebral, uma realidade diária em pronto-socorros e UTIs de hospitais públicos e de trauma em grandes cidades, onde ferimentos por projétil de arma de fogo (PAF) na região raquidiana representam uma das principais causas de traumatismo raquimedular penetrante. Estudos epidemiológicos brasileiros mostram que esses traumas afetam predominantemente homens jovens (média de 25-30 anos), com incidência crescente nos últimos anos — saltando de cerca de 7% para 15% em algumas séries entre 2007 e 2015 —, tornando-se a segunda ou terceira causa de lesão medular traumática, atrás apenas de acidentes de trânsito e quedas. A violência urbana, tiroteios, assaltos e confrontos armados transformam UTIs em “cenários de guerra”, com pacientes chegando em estado grave, muitas vezes com lesões torácicas (mais comuns, cerca de 50%), cervicais ou lombares, e déficits neurológicos completos (ASIA A) em grande parte dos casos.

Os mecanismos de lesão envolvem não só o trajeto direto do projétil — que pode ser transfixante ou com fragmentos alojados no canal medular —, mas também a onda de choque cavitária, que causa danos extensos à medula espinhal, raízes nervosas e estruturas vertebrais adjacentes, resultando em hemorragia, edema, isquemia e necrose tecidual. Isso leva a paralisia flácida inicial, perda sensitiva abaixo do nível da lesão, incontinência esfincteriana e complicações imediatas como choque neurogênico, lesões associadas viscerais (pulmão, abdome) e sepse. No Brasil, o tratamento é controverso: profilaxia antitetânica e antibióticos são rotina, mas a cirurgia (laminectomia, descompressão ou remoção de projétil) depende do estado neurológico, estabilidade da coluna e presença de infecção ou instabilidade, com abordagem conservadora prevalente em muitos centros.

A mortalidade e morbidade são altas: taxas de óbito variam de 7-18% em séries hospitalares, frequentemente por complicações respiratórias (em lesões cervicais altas), sepse, pneumonia aspirativa ou lesões associadas torácicas/abdominais, com mortalidade chegando a 40-50% em casos graves com sepse. Sobreviventes enfrentam paraplégia ou tetraplegia permanente, úlceras de pressão, infecções urinárias recorrentes, trombose venosa e dependência vitalícia, gerando enorme ônus socioeconômico ao SUS e famílias. A recuperação neurológica é limitada, com prognóstico reservado comparado a traumas fechados.

Essa “medicina de guerra” cotidiana no Brasil destaca a necessidade urgente de prevenção via controle de armas, políticas de segurança pública e educação, além de investimentos em reabilitação precoce, equipes multidisciplinares e protocolos de trauma em hospitais. Como neurocirurgião, vejo diariamente o impacto devastador dessas lesões evitáveis, que transformam vidas jovens em dependência total e sobrecarregam o sistema de saúde — reforçando que a violência armada não é só problema social, mas uma emergência médica crônica no país.