O cenário epidemiológico do trânsito brasileiro em 2025 configura-se, sob a ótica da neurocirurgia e da saúde pública, como uma catástrofe de morbimortalidade sem precedentes. Observamos uma mudança drástica no perfil da cinemática do trauma: não lidamos apenas com acidentes, mas com colisões de alta energia cinética envolvendo motociclistas, resultando em politraumatismos complexos. O aumento abrupto na incidência de óbitos e sequelas permanentes reflete o colapso das medidas de prevenção primária, gerando uma sobrecarga insustentável nos centros de referência em trauma, onde a “hora de ouro” muitas vezes é desperdiçada pela gravidade extrema das lesões na cena do evento.
Do ponto de vista fisiopatológico, a vulnerabilidade do condutor da motocicleta expõe o crânio e a coluna vertebral a forças de desaceleração e cisalhamento devastadoras. Mesmo com o uso de capacete, o parênquima cerebral sofre o impacto inercial dentro da calota craniana, resultando frequentemente em Lesão Axonal Difusa (LAD) e contusões hemorrágicas múltiplas. Em 2025, a prevalência de Traumatismo Cranioencefálico (TCE) grave — com Escala de Coma de Glasgow inferior a 8 na admissão — aumentou significativamente, exigindo intervenções neurocirúrgicas de emergência para drenagem de hematomas subdurais agudos e epidurais, lesões que, sem manejo imediato, evoluem rapidamente para herniação cerebral e óbito encefálico.
No ambiente de neurointensivismo, o manejo desses pacientes tornou-se um desafio hercúleo. A rotina cirúrgica tem sido dominada pela realização de craniectomias descompressivas para o controle da hipertensão intracraniana maligna refratária às medidas clínicas. Contudo, a técnica cirúrgica, por mais precisa que seja, encontra limites biológicos: o tecido neural lesionado possui capacidade regenerativa limitada. Consequentemente, observamos uma geração de sobreviventes com sequelas neurológicas profundas, variando desde estados vegetativos persistentes até déficits motores e cognitivos incapacitantes, que retiram precocemente jovens de sua fase economicamente ativa, gerando um custo social e previdenciário incalculável.
Em suma, a explosão de mortes no trânsito em 2025 não é um acaso estatístico, mas o resultado de uma sinergia letal entre imprudência, aumento da frota e fiscalização ineficiente. Para o neurocirurgião, resta a frustração de atuar na “medicina de resgate”, tentando mitigar danos em um sistema nervoso já devastado. A única intervenção verdadeiramente eficaz para esta epidemia não se encontra no centro cirúrgico, mas na implementação rigorosa de políticas de segurança viária e na conscientização de que o corpo humano, por mais resiliente que seja, não evoluiu para suportar a transferência de energia de um impacto motociclístico em alta velocidade.