A dor lombar persistente após cirurgia da coluna é uma queixa comum e pode ocorrer mesmo quando o procedimento foi tecnicamente bem-sucedido. Conhecida como síndrome da falha na cirurgia de coluna (Failed Back Surgery Syndrome – FBSS) ou síndrome pós-laminectomia, ela afeta uma parcela significativa de pacientes operados por condições degenerativas, como hérnia de disco, estenose lombar ou instabilidade vertebral. Nem sempre significa erro cirúrgico — muitas vezes resulta de fatores multifatoriais, incluindo aspectos pré-operatórios (como diagnóstico incompleto, depressão, tabagismo ou obesidade), intra-operatórios (técnica inadequada ou complicações) e pós-operatórios (degeneração adjacente ou cicatrização excessiva). Como neurocirurgião, vejo que a dor inicial pós-cirúrgica é esperada por semanas ou meses devido à inflamação e manipulação tecidual, mas quando persiste além de 3-6 meses ou piora, exige investigação detalhada com exames como RM, TC e avaliação multidisciplinar para identificar a causa raiz e planejar o melhor manejo.
Uma das principais causas é a fibrose epidural (ou cicatriz peridural), onde o tecido cicatricial se forma ao redor das raízes nervosas após a manipulação cirúrgica, irritando ou comprimindo nervos e gerando dor neuropática crônica, muitas vezes irradiada para as pernas. Outra causa frequente é a pseudoartrose (falta de consolidação óssea na artrodese), comum em fusões vertebrais, especialmente em fumantes, diabéticos ou pacientes com osteoporose — leva a instabilidade persistente, dor mecânica ao movimento e falha nos implantes (parafusos ou cages). A degeneração do segmento adjacente (doença do nível acima ou abaixo da fusão) também é muito prevalente, pois a cirurgia altera a biomecânica da coluna, sobrecarregando vértebras vizinhas e acelerando artrose facetária, hérnias novas ou instabilidade. Além disso, sobrecarga na articulação sacroilíaca surge como uma das causas mais comuns após artrodeses lombares, pois a fusão transfere estresse para essa articulação, causando dor lombar baixa, glútea e até irradiada.
Outras causas importantes incluem descompressão incompleta ou inadequada das raízes nervosas (estenose residual ou hérnia recorrente), dano nervoso intraoperatório (lesão direta ou neuropraxia), infecções pós-operatórias (discite ou abscesso), problemas com hardware (migração ou quebra de implantes) e fatores não mecânicos, como componentes psicossociais (ansiedade, depressão ou fibromialgia associada), que amplificam a percepção da dor crônica. Em alguns casos, a indicação cirúrgica inicial foi para lombalgia axial pura (sem compressão nervosa clara), o que tem taxas de sucesso menores comparado a ciatalgia por hérnia. A detecção precoce dessas causas requer RM com contraste, exames dinâmicos (flexão-extensão) e, às vezes, bloqueios diagnósticos para diferenciar origens facetárias, sacroilíacas ou neurais.
O manejo da dor lombar pós-cirúrgica começa com abordagem conservadora: fisioterapia específica, analgesia multimodal (anti-inflamatórios, neuromoduladores como gabapentina ou duloxetina), bloqueios facetários ou sacroilíacos e reabilitação funcional. Quando há causa mecânica corrigível (pseudoartrose, instabilidade adjacente ou compressão residual), uma nova cirurgia pode ser indicada — como revisão de artrodese, extensão da fusão ou remoção de fibrose — mas sempre com expectativas realistas, pois resultados são variáveis. A prevenção é chave: seleção rigorosa de pacientes, planejamento cirúrgico preciso, técnicas minimamente invasivas e controle de fatores de risco pré-operatórios melhoram os outcomes. Se você está com dor persistente após cirurgia da coluna, procure um neurocirurgião ou especialista em dor para avaliação detalhada — muitas vezes há soluções efetivas para melhorar a qualidade de vida.